Entrevista ao Diário Insular

Hoje, saiu a entrevista que o nosso candidato José Ávila deu ao Diário Insular. A escassez de recursos hídricos, a desertificação, o turismo e os transportes são alguns dos temas abordados ao longo da entrevista.
Fique então a conhecer, na íntegra, a entrevista do nosso candidato.

Quais as propostas essenciais com que se apresenta ao eleitorado de Santa Cruz da Graciosa?

A equipa que lidero reconhece que as questões relativas à água estão no topo das nossas preocupações, muito embora também se entenda que este assunto deverá ser tratado sem alarmismos.
Sobre esta matéria pretendemos tomar medidas precaucionais no imediato e dotar o executivo do conhecimento sobre as reservas hídricas da ilha Graciosa para tomar decisões com base em informação científica.
Para atingir esse desiderato é preciso reunir especialistas e debater os estudos existentes, até porque, por vezes, a informação parece contraditória.
É preciso estarmos seguros a curto prazo, mas não podemos deixar de preparar o futuro que, caso se confirme a escassez deste recurso, se comece a analisar alternativas que podem passar pela dessalinização.
Paralelamente temos de começar a olhar para o assunto de modo mais pedagógico, ou seja, desenvolver campanhas para o bom uso deste recurso, recuperando tanques das pastagens e recolhendo as águas pluviais para alimentação animal e incentivando as pessoas a fazerem o mesmo para diversos usos. Pode não ser muito, mas será certamente um contributo que poderá fazer toda a diferença.

A Graciosa – ilha de concelho único – tem um problema de escassez de recursos hídricos, que poderá levar à dessalinização (tratamento de água do mar), caso não apareça outra solução. A ilha já perdeu demasiado tempo? Este problema já deveria estar resolvido? Como se propõe resolvê-lo?

Não se perdeu tempo, até porque foram feitos diversos estudos e diversas avaliações da situação, ao mesmo tempo que se trabalhou na questão da qualidade e na sua monitorização constante. Também se investiu muito na substituição de parte das redes de água já obsoletas e que eram causa de enormes prejuízos e ainda são.
Toda esta situação não se resolve de um momento para o outro, por isso digo que o tempo das decisões é agora e é isso que pretendemos fazer neste próximo mandato, conforme referi na resposta anterior.

Os dados demográficos, agora refrescados com os Censos de 2021, não são favoráveis à Graciosa – nem aos Açores, note-se -, que apresenta perdas populacionais que no tempo longo podem ser consideradas catastróficas e no tempo curto (2011-2021) poderão ser consideradas muito preocupantes. Que causas atribui a esse fenómeno e que ideias tem para inverter o processo?

Infelizmente essa é uma verdade. A desertificação humana é também um problema sério de difícil resolução e é outro que merecerá a nossa melhor atenção.
Desde 1975 só registamos 4 anos com saldo natural positivo, o que demonstra que não conseguimos renovar as gerações.
No nosso programa temos propostas capazes de ajudar a fixar jovens, nomeadamente com o reforço do apoio à natalidade, a simplificação do apoio à habitação degradada, dando prioridade à reabilitação do parque habitacional já existente, promover a ilha como destino ideal para desenvolver negócios de base tecnológica, criar um programa de apoio para os nómadas digitais, criar um espaço de trabalho partilhado destinado a fixar empresas e dar uma atenção especial a iniciativas empreendedoras e capazes de gerar o auto emprego. É também nossa intenção ter uma postura proativa na captação de investimento gerador de emprego. Não podemos assistir de bancada a este problema, é preciso agir, até porque a concorrência é grande. Todas as Câmaras procuram o mesmo.

Em 2019, antes da pandemia, os Açores estavam a caminho de uma nova monocultura, que seria a da indústria do turismo. A pandemia veio demonstrar que tal economia, além de ser predadora de recursos e nefasta para o ambiente, também é demasiado frágil, reagindo de forma radical a qualquer estímulo negativo. Como deve a Graciosa relacionar-se com esta indústria do turismo e que lugar ela deve ocupar na economia local?

A Graciosa não está dependente da indústria do turismo. Tem outros áreas importantes na economia, como a produção de laticínios, de carne e de produtos agrícolas tradicionais, como a meloa e o alho, para além de pequenas indústrias que tem tido sucesso, quer produzindo para consumo local, quer para exportação, como é o caso das queijadas.
O turismo que tem chegado à Graciosa não tem exercido demasiada pressão em termos ambientais. É um turismo que nos interessa, que procura a sustentabilidade e como tal respeita o ambiente e as tradições locais.
No entanto, a pandemia trouxe enormes prejuízos ao setor que, espera-se, sejam atenuados pela retoma gradual que está a acontecer.
Percebe-se que o turismo, para já, não domina a economia local, sendo apenas mais uma atividade que está a fazer o seu caminho.

A Graciosa tem sempre razão de queixa quando o debate é sobre transportes, quer marítimos, quer aéreos, de carga ou de passageiros…Qual o problema essencial e como resolvê-lo?

Atacava-se muito os transportes aéreos, mas em 2015 isso ficou resolvido com a duplicação das rotações e mais tarde com duas ligações diretas a Ponta Delgada, que ainda hoje se mantém. Foi com naturalidade e acompanhando a procura que dos 496 movimentos em 2009 passamos para os 653 em 2019.
Os horários foram feitos com atenção para, por um lado, proporcionar ligações rápidas com o exterior e também para garantir a exportação do nosso principal produto que é o peixe fresco.
Relativamente aos transportes marítimos a questão já é outra. Em 2017 o Partido Socialista foi muito criticado por ter votado contra a inclusão da Graciosa na Linha Lilás.
Recordo que essa linha tinha previstos 24 toques nos portos da Calheta e das Pipas. Estendê-la à Graciosa iria implicar a impossibilidade de transportar viaturas para e da Terceira ou de S. Jorge, por terem portos sem rampa ro-ro, para além de só ter capacidade para 12 viaturas.
A opção, nessa altura, foi aumentar a frequência da Linha Amarela que ligava todas as ilhas dos Açores e foi assim que passamos de 57 toques em 2014 para 83 toques em 2019. Foi um crescimento de 26 toques, mais do que os previstos pela Linha Lilás.
Esta opção foi muito criticada, mas suponho que hoje os Graciosenses devem estar a pensar que estivemos bem servidos, ao contrário do que vai acontecer nos próximos dois anos, que serão fundamentais para a retoma que já começa a acontecer.
Resolver o problema atual dos transportes marítimos passa pela recuperação da Linha Amarela já para 2022.
É este serviço que vai a todas as ilhas, tem capacidade para o triplo de passageiros e 10 vezes mais viaturas, por isso garante a coesão regional e acesso aos maiores mercados da Região.
Lamento que o Governo se prepare para assentar a mobilidade dos Açorianos apenas no transporte aéreo. É um erro repetir o que aconteceu nos anos oitenta do século passado, quando o Governo de então resolveu acabar com o transporte marítimo de passageiros.
Relativamente ao transporte aéreo, basta não estragar o que já foi conquistado ao longo dos últimos anos e depois acompanhar a oferta conforme aumenta a procura, tal como está a acontecer.

in (2021, 27 de Agosto). Diário Insular, pp. 02-03.

Copyright 2021